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01/11/2015: ANGOP - Quatro décadas em prol da Nação

ANGOP - Quatro décadas em prol da Nação

Luanda - Máquinas "silenciadas" pelo tempo. Sonhos que animaram gerações. Textos de profundo conteúdo e prémios de um passado carregado de sacrifícios. É com estas memórias que profissionais da ANGOP resumem o trajecto iniciado em Julho de 1975 e lembram de peripécias de uma agência comprometida com a Nação.

(Por Elias Tumba e Adriano Chisselele)

São 40 anos de resistência e fidelidade à informação, celebrados com as mentes no passado, mas olhares atentos aos desafios de um futuro ambicioso.

A Angop resiste ao tempo. Surgiu com a designação de Agência Nacional Angola Press (ANAP), renomeada para Agência Angola Press, a 30 de Outubro de 1975.

Nasceu num contexto adverso, adaptou-se à realidade tecnológica, resistiu à pressão política e seguiu o crescimento do país.

"A Angop nasceu e acompanhou o processo de surgimento da Nação, a difundir as suas peças, o seu noticiário ao mundo. Acompanha o desenvolvimento do país, até hoje", expressa o seu presidente do Conselho de Administração, Daniel Jeorge.

Só em 1978, a Angop transformou-se em órgão estatal de comunicação social e lançou as bases para o seu crescimento.

Ernesto Videira (Voto) é um dos membros fundadores que, ainda jovem, assumiu o compromisso de trabalhar em prol da Pátria.

Conhece como poucos os meandros da fundação, as motivações, limitações, peripécias e a tecnologia usada no histórico dia do primeiro despacho.

"Era uma teleimpressora electromecânica de marca SAGEM. O funcionamento da transmissão de notícias para outras agências ou assinantes do serviço da ANGOP era tecnicamente feito através de fitas perfuradas que continham a informação, que era dactilograda por um técnico", narra Voto.

Actual chefe do Departamento de Exploração, explica que o começo da actividade foi sofrido, com meios arcaicos, mas a determinação dos profissionais fez superar as barreiras.

"No início não tínhamos ainda delegações a nível das províncias. A primeira delegação da Angop foi na Vila Alice, Avenida da Liberdade. Posteriormente, mudamos para o Palácio, onde tínhamos uma secção no antigo Ministério da Informação. Tínhamos lá uma máquina de telex da Angop", recorda.

Sistema ponto-a-ponto

A tecnologia da época era a possível para um país acabado de nascer, de pouca referência, mas fiável na emissão do produto final: o texto.

Foi com essa tecnologia que Mário Pedro Segunda se iniciou na carreira. O profissional fez parte da primeira geração de quadros oficialmente admitidos na Angop, em 1978.

Apesar da longevidade, lembra-se dos primeiros quadros, da estrutura da redacção e do papel relevante de José Mena Abrantes na criação das balizas normativas para um jornalismo científico, uniforme e com padrões claros.

"A redacção já estava compartimentada, uma nacional e outra internacional, que trabalhavam em dois turnos (das 8:00 às 20:00). Só a partir de 1978 começaram a surgir as delegações nas principais províncias: Cabinda, Malanje, Huambo, Benguela e Huíla".

"Tive a incumbência de abrir as delegações do Cuanza Norte e do Bengo. Havia problemas de natureza técnica. Tínhamos as chamadas tele-impressoras - máquinas electromecânicas com um sistema de transmissão. Umas fitas perfuradas. Permitiu na altura uma maquinaria fiável do telex. Era estabelecido um sistema de ponto-a-ponto entre o emissor e receptor", diz.

Lembra que a redacção dos textos era feita em máquinas de dactilografia, em papéis do tipo A4, vulgarmente chamados de linguados. Trabalhar nessas condições exigia espírito de sacrifício. Foi nesse contexto que Patrício Kambuandi "mergulhou" nesse universo.

Desde Outubro de 1983, sentiu na pele as peripécias do jornalismo de então. Apesar das carências, resistiu e aprimorou a escrita.

"Na década de 80 havia muitas dificuldades. A Angop não era o que é hoje. Os repórteres iam à rua a pé. Quando cheguei, fui integrado numa área que publicava Ecos. Era um boletim económico. O chefe era o actual administrador José Chimuco. Fiquei adjunto dele no Ecos, dirigido às estruturas governamentais e diplomáticas", lembra.

Na altura, sublinha, a Angop era uma empresa de referência, a única do Estado com meios capazes de fazer, por despacho, chegar a informação para fora do país.

Revolução do EDIVAN

Aos poucos a Angop ganhou o mundo e deu passos significativos em termos tecnológicos. O sistema EDIVAN veio aumentar a rapidez, melhorar a eficiência e diminuir o esforço. Foi um dos primeiros sinais de modernidade.

"Eram máquinas semi-inteligentes, utilizadas já no limiar da era de informática. As máquinas tinham instalado o software Editor Van (EDIVAN). Já era de leitura mais evoluída", conta Ernesto Videira.

Daniel Jeorge também tem boas memórias dessa nova fase tecnológica da Angop. "O tempo foi passando e Angop desenvolveu. Passou do telex para os VDU, micro-processadores com um ecran, em que os profissionais batiam a notícia e já podiam ver e corrigir. Passamos à era dos computadores e fomos avançando para os servidores grandes que podiam armazenar todo material para ser mandado fora".

"Dos servidores passamos para os satélites e hoje temos um portal dinâmico, que trabalha com plataforma de fotografia, imagem, texto, infografia e TV", regozija o gestor.

Formação e manual de referência

O crescimento tecnológico elevou o grau de exigência dos profissionais. Desde a década de 80, a Angop tornou-se uma escola. "Os primeiros quadros da Angop eram jovens que terminaram o ensino liceal, jovens com uma formação sólida nas vertentes técnica e de linguagem", conta Mário Pedro Segunda.

Acrescenta que a formação profissional, como tal, começou internamente com pequenas acções, dirigidas pelo responsável da redacção José Mena Abrantes, sublinhando que só depois passaram a fazer formação na Jugoslávia, Portugal, Cuba, Alemanha Democrática e outros países.

Pedro da Ressurreição foi um dos jovens que bebeu dessa experiência. Memorizou o Manual de Normas de Redacção, usado como modelo no curso médio de jornalismo.

O actual editor da área Desportiva chegou à redacção em Abril de 1989 e, a pesar do rigor e da exigência dos superiores, resistiu à pressão.

"Quando entramos o cenário era outro. Agora as dificuldades são maiores, porque a qualidade dos candidatos a jornalista é menor", lamenta o profissional.

Nazaré Filipe e Stela Silveira chegaram à Angop quase na mesma altura (1991). A primeira teve passagem por várias áreas da Redacção Nacional e Internacional, antes de se afirmar como secretária de redacção.

"Entrei como jornalista. Já trabalhei em várias áreas da redacção nacional e internacional. Comecei como estagiária do Desk Desportivo. Depois fui ao económico. Era uma altura de rotatividade", lembra a profissional, que teve outras passagens pelo Aeroporto 4 de Fevereiro a delegação da Angop no Rangel.

Há 18 anos no papel de secretária de redacção, Nazaré Filipe afirma que as mulheres sempre estiveram ao lado dos homens e ajudaram a construir, com mérito próprio, a Angop de hoje.

Stela Silveira também entrou em 1991, no mesmo contexto político, porém com outras ambições. Ao contrário da colega, manteve-se na redacção, cujos meandros começou a conhecer num período de transição política, na véspera das eleições gerais de 1992, a fase mais dura da carreira.

"Entrei num momento diferente, à entrada da transição para a democracia, em 1991. O país preparava-se para as primeiras eleições. Vivemos aquela azáfama, ir atrás dos partidos políticos. Ficávamos horas à espera das delegações. Era uma altura em que tinha acabado de ser mãe", testemunha, com nostalgia, a actual delegada no Aeroporto.

Esses profissionais entraram na Angop em épocas e contextos diferentes, mas ao fim de 40 anos convergem num pensamento: são produto de uma verdadeira escola. Como tal, lançam um repto à nova geração, no sentido de continuar a trabalhar e manter-se humilde, aprimorando as novas ferramentas com a capacidade intelectual.

É esse o compromisso assumido por Walter dos Reis, quadro da agência há mais de 10 anos, exclusivos à redacção desportiva.

"Aprendemos e continuaremos a aprender, no sentido de fazer trabalhos com melhor qualidade e passar informação credível", diz.

Todo esse esforço é assumido pelo PCA Daniel Jeorge, que se diz satisfeito com o crescimento tecnológico, mas incita os profissionais a buscarem a excelência.

"A Angop é fundamental para o desenvolvimento da comunicação social em Angola. Tem um papel estratégico. Está ao lado das populações, em todos os municípios. A nossa meta é estar ao nível de todas as agências do mundo. Temos profissionais para estar a esse nível", conclui o gestor.